segunda-feira, 14 de junho de 2010

A sua lembrança mais forte dele fica na não tão distante infância: o cheiro de álcool e perfume que ele exalava em algumas noites por semana e que ficava impregnado no quarto onde no dia seguinte ela lhe servia o café-com-leite bem escuro da manhã, que ele tomava rápida, vigorosamente e de olhos semi-abertos, para agradecer e voltar ao seu sono de bêbado da vida toda. Ela sempre o beijava nas bochechas e talvez ele sorrisse.

Era um homem hostil e ausente aquele pai. Alguém com quem não se podia trocar muitas palavras quando estava sóbrio, pois monossilábico, e que assustava com a sua fala violenta e desajeitada quando bebia. Assustava os amigos e ela se envergonhava disso. Ela o achava inatingível debaixo dos seus bigodes grisalhos e dos seus cabelos brancos repartidos sempre do mesmo lado com uma precisão geométrica. Dos olhos, ela quase não lembra, apesar de serem tão parecidos com os dela.

Não obstante, ela o amava e respeitava tanto. Gostava de engraxar e de polir os seus coturnos de trabalho e sempre guardava uma das suas preciosas balas para que ele levasse para o serviço. Queria segui-lo por toda parte quando estava de folga, até no bar, de onde ele a afugentava com doces que ela podia escolher se voltasse depressa para a casa. O pai era a criatura mais inteligente com a qual ela já convivera. Estudara história, desenhava e cozinhava com talentos e caprichos artísticos de um não-sei-o-que que ele escondia debaixo da farda cinzenta. A menina sonhava saber tanto quanto ele, assim talvez estivessem mais próximos, um dia. Ela nunca aprendeu a desenhar.

Uma vez ele a levou a um grande bingo da cidade, a céu aberto, num campo enorme de lembranças. Ela nem se lembra mais do por quê de ter sido a convidada, apenas que aceitou prontamente e de forma entusiasmada. Gostava de bingos. Caminharam até o recinto, tomaram sorvetes, refrigerantes, comeram batatas, sanduíches, coquinhos açucarados, conversaram e sorriram juntos. Fazia calor e o cheiro era de terra e grama pisada, um perfume que ela aspirava deliciada do alto de seus dez anos. Ali, não importava que ela fosse menina e muito malcriada para os padrões patriarcais, assim como foi ignorada a pequena altivez despontada que ele criticava sempre com tanta ferocidade. Ali não estava a mãe nem os irmãozinhos que ocupavam toda a atenção daquele ser admirado. Ela era uma boa e esperta companhia para o papai e sentia-se filha, tratada com todo o carinho e atenção que ela pedia com as suas ações revoltosas de garota-problema. Não houveram prêmios para eles, mas a prenda maior ela é que ganhara naquele fim-de-tarde. Então, o dia acabou e tudo voltou a ser frio e amedontrador como sempre fora. Mas ela guardou aquela tarde junto das suas lembranças abandonadas e com elas, todo o bom que experimentou naqueles momentos tão breves, assim como uma reserva de felicidadezinha que se pode usar quando tudo da vida se desfaz. Jamais teve coragem de mexer nessa reservazinha desde que adulta. Até hoje.

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