Sem pressa, beijaram-se, saboreando cada instante que passavam em companhia um do outro. Um encontro querido. Apenas os dois, desejando se deixar ficar, embora cada um não se deixasse como ficar como certo. Preferiam as liberdades do dia a dia que, segundo suas experiências, só se tinha desacompanhado. Não, não eram um casal. Pensavam.
E eis que a razão desmedida surge ao seu tempo, mais que equivocada (não se pode domar a própria razão), e a moça se desvencilha dos braços do rapaz, erguendo em torno de si uma já tão conhecida sua armadura. Caminhou alguns passos na frente e fez uma piada. Sarcasmo. como que para mostrar a distancia que ela, ou a razão dela, impusera. Com a sabida falta de graça que cultivam os enamorados, Ele tentou sorrir e trazê-la para perto de si de volta da avalanche de sentimentos ruins nos quais ela submergira. comprou de uma velhota com seu carrinho uma bebida que aliviasse a secura da boca. A senhora sorriu: "Casal bonito... que sorte que têm. Deus abençôe!". Devolveu o troco de três reais em moedas miúdas.
Ela se sentou no banco de pedras mais próximo. De costas. Pensava nas palavras da vendedora. Ele também pensava. Então, apanhou todo aquele troco e foi colando as moedas, uma a uma, nas costas descobertas e úmidas de suor que o encaravam. Gozador e terno. Os gestos eram carícias, como uma tentativa de criar estrelas naquele céu. Se desvaneceu a armadura. Era apenas o começo. Isso eles sabiam.
O anoitecer chegou brilhante e repleto, como chegam as coisas boas da vida. O mundo cheirava a dama-da-noite por fora e por dentro. Também chegou a hora de ir embora e os convidou a partirem dali juntos e além. Seriam Eles? Uma moeda ficou esquecida no banco. Ela pegou "Pra dar sorte". Partiram.
