A velha desconhecida cantava e acho que rezava na placidez branca dos seus cabelos presos num coque e na luminosidade das suas roupas, que também eram brancas para mim. Minha mãe e minha avó simplesmente se haviam diluído em meio àquela aura de superstição diurna. Eram por demais terrenas para participarem do mundo etéreo das minhas imaginações infantis. Fui correr lá fora.
Entre curiosa e entediada, eu espiava a porta aberta da capela, aguardando, por entre as plantas, que me viessem chamar a partir. Devagar, fui tomada pelo fascínio das coisas imateriais e intangíveis que acompanhavam o cheiro de velas e ervas queimadas. Um barulho na folhagem, porém, me chegou como medo. Aquele medo que a gente tem do medo mesmo do que não conhece. Corri até a minha mãe e a minha avó com seus cheiros e formas familiares e implorei que voltássemos para a casa. "Shhhhh! Vai curar a sua bronquite!", veio a resposta em reprimenda à minha ansiedade de criança arteira.
Não haviam cadeiras. Me sentei mesmo no chão e tentei me esquecer do temor de ficar presa para sempre, que me havia impresso naquele lugar, cantarolando mentalmente o tema de abertura do meu seriado preferido. A realidade familiar espantava os meus demônios e a atmosfera asfixiante de ali.
Então, tudo acabou e voltamos para qualquer das minhas muitas casas da infância no fusca marrom chamado Pururuca. E a velha, mais o bucolismo distante daquele lugar encantado, tomaram parte em sonhos e pesadelos das minhas noites de chuva. E mesmo hoje, na concretude da metrópole que permeia a minha recente vida adulta, vagam ainda por mim nos espectros da bronquite que os meus temores e a minha falta de fé impediram que fosse embora, não obstante apareça cada vez mais enfraquecida pelas minhas resistências em me deixar aprisionar por o que quer que seja.

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